segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Simultâneas

Neusa Schilaro Scaléa é a curadora de ambas as exposições que estão em cartaz neste momento na Pinacoteca Municipal de São Caetano. Abaixo, ela nos descreve seu olhar sobre cada um dos artistas e de suas respectivas produções.

Para você que já veio ou para você que irá visitar as mostras, uma boa leitura e uma boa reflexão!


Temos o privilégio de abrigar na Pinacoteca Municipal de São Caetano do Sul duas mostras que nos dão a oportunidade de fazer um contraponto bastante instigante. Na sala especial temos Diálogos com obras de Flávio Abuhab e no salão maior, quase uma retrospectiva do artista Inos Corradin, com a exposição Universo Lúdico de Inos Corradin.

Abuhab, conciso, cerebral, claro e conceitual. Suas inquietações e propostas são realizadas depois de pesquisas em seu próprio repertório de estudos e formação. Ideias de seu laboratório de imagens e registros próprios.

Este artista trabalha em sintonia com o seu entorno e com seu tempo; em sua obra não há figuração no sentido de representações conhecidas, se estão ali não são mais o que representam. Utiliza fotografias não como registro e sim como suporte, que submetem-se a intangibilidade da ideia. Primeiro, a ideação, depois, o material, a forma, a cor, como resultado e não como ponto de partida.

Simultaneamente e sob o mesmo teto, mas na sala maior, um artista que, tanto pelo seu percurso como pelo seu repertório, desenvolveu um trabalho bem diverso de Abuhab.

Inos bebeu em outras fontes e buscou outros caminhos. A figuração nunca o abandonou, quando quase escorregou para a abstração, o chiaroscuro, a velatura e a relação figura-fundo permaneceram. Aprimorou sua técnica em função das figuras e seu contato com as linguagens artísticas aconteceu sem intermediações e sem teorias. Inos se aprisionou na profissão de artista, tem os pés no chão. Flávio é artista sendo professor, estudando e ensinando arte, flutua no tempo presente.

Flávio, um artista ligado à universidade, estudioso, um acadêmico, não no sentido de quem produz, mas de quem ensina arte, faz exatamente desse elenco de conhecimentos, pesquisas e elaborações  a sua obra, por vezes clara e exata, por vezes hermética e fechada. Inos é o artista que saiu em busca da valorização do mercado, mantendo propostas e modelando, em épocas diversas, sua experiência estética única.

Se Flávio pode provocar certo desconforto intelectual e emotivo devido ao inusitado quando desloca o objeto sem deixar ao observador nenhuma referência, Inos também vai provocar estranhamento com a deformação das figuras, do fantástico e do maneirismo recorrente.

Flávio Abuhab,  um artista para o qual podemos usar a frase de Nicolas Bourriaud: “Ao invés desse ajoelhar diante das obras do passado, usá-las”. Ou ainda como nos diz Anne Moeglin-Delacroix: “Para os artistas conceituais, são as informações, textos, fotografias, fotocópias, esquemas, que documentam não tanto um objeto ou ação in absentia, mas a ideia, por natureza invisível”.

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